Os Saturnia são uma viagem longa de 13 anos - invenção de um homem, Luís Simões, habitado pelo imaginário do sonho psicadélico.

A viagem já vai longa de 13 anos, mas os Saturnia ainda são um enigma, um nome que só conspiradores d"aquém e d"além mar reconhecerão imediatamente. O mistério, de resto, faz parte do jogo. Ou entramos ou não. Eles estarão ali, disponíveis, mergulhados no seu universo de digressões cósmicas e eléctricas, de trance dances, arcadian watchers e cosmonication: "I am utopia", exclamam. Alpha Omega Alpha é o título do seu novo álbum, o quarto desde a estreia homónima em 1999. Os Saturnia, viagem muito pessoal de Luís Simões, são música nascida em casa mas com dimensão de uma galáxia bem medida. Continuam a expansão.
Continua o sonho psicadélico, o desejo de transcendência do space-rock. "A música de Saturnia não se impõe nem se quer impor. Não quer ser nem agradável, nem desagradável. Brota sem querer incomodar. São uma força polite", diz o seu fundador. "Se o ouvinte tiver a capacidade de focar a sua atenção naquele pontinho no mundo que são os Saturnia, facilmente se deixa levar", continua. Há 13 anos que uma pequena comunidade mundo fora se anda a deixar levar. Embrenha-se nesta música que, citemos alguns exemplos caros ao seu criador, parece gravitar no espaço sideral inventado pelos Pink Floyd mais planantes, pelos Tangerine Dream que divagam entre vagas de sintetizadores, pelos Pulsar que deram a França novas propriedades psicadélicas. Parece. Mera ilusão. Porque Alpha Omega Alpha, álbum duplo em que Simões filtrou tudo aquilo que deu forma aos Saturnia até atingir o núcleo mais puro da sua música, é um trabalho de alquimista sonoro capaz de criar uma massa que revela novos pormenores a cada nova audição - e de efabular, digamos assim, com toda a classe: ouça-se a fluidez orgânica da bateria e saiba-se que foi samplada e montada meticulosamente para soar daquela forma.

Eremita?
Esta banda que começou como união dos cosmonautas sónicas dos anos 1970 aos ravers electrónicos da década de 1990 - hoje a electrónica remete-se a um papel secundário - vem de um lugar específico. Da casa de Luís Simões: "Seria impensável para mim ir para estúdio, mesmo que fosse o melhor estúdio com o meu produtor de sonho. A música dos Saturnia, super arranjada, muito trabalhada, nasce do meu dia-a-dia caseiro". Nasce da cabeça de Luís Simões e daquilo que a "bolha" Saturnia lhe suscita: "É um universo que tem uma relação simbiótica comigo. Toco a música e sou tocado por ela, como um carril que é um escorrega", ilustra. "Tenho algum controlo, mas deixo-me levar".
Para Simões, há uma razão para a permanência do rock psicadélico ou progressivo - ele, conhecedor profundo e enciclopédico desse mundo, é mais do primeiro que do segundo - se manter presente na actualidade e continuar a fomentar nova criatividade, novas bandas, novas expressões. Existe "a vertente muito importante do sonho, que é o ex-libris desta música, mesmo no progressivo, que eram muitos sonhos muito organizadinhos". E existe o facto de, para a maior parte das bandas daquelas primeiras vagas, "ser inconcebível fazer algo que não fosse absolutamente autêntico e genuíno, no sentido de representar uma vivência, um eu interior": "Quer falemos do Florian Fricke [Popul Vuh] na Alemanha, dos Pulsar em França, dos Arti E Mestieri em Itália ou dos Tantra em Portugal, falamos de uma visão única. A que só eles tinham acesso". Acrescenta: "Aquilo que também vende alguns discos de Saturnia, em quantidades até surpreendentes para o trabalho promocional que é feito, que é basicamente nulo, é isso". Os Saturnia, cujos concertos dados em Portugal ao longo de quase década e meia se contam pelos dedos das mãos (e cujos discos não são fáceis de encontrar por cá), mas que são nome de culto para a comunidade atenta ao psicadelismo e ao progressivo (com edições esgotadas e demais sinais exteriores de sucesso), subsistem rodeados por uma aura de mistério e invisibilidade.
Há cerca de dois meses, coisa rara, andaram em digressão. A sua editora, a alemã Elektrohasch, convenceu finalmente Simões. Se existe a música - a dos álbuns Saturnia (1999), The Glitter Odd (2001), Hydophonic Gardening (2003), Muzak (2007) e Alpha Omega Alpha (2012) -, se existem um Nik Turner, dos Hawkwind, ou um Daevid Allen, dos Gong, a elogiá-los (e a colaborar no anterior Muzak), se existe gente espalhada pelo mundo desejosa de os ouvir, porque não mostrá-la por fim? Foi o que pensou Simões. Acompanhado pelo teclista Tiago Marques, andou com os alemães Colour Haze por Bremen, Colónia, Viena, Linz ou Londres.
Não o julguemos porém um eremita, fechado em casa a criar música que, por reserva, não leva ao público. Ano após ano, muitos milhares viram-no em concerto, escondido atrás da máscara de Zymon, um dos alienígenas que compõem a formação dos Blasted Mechanism. Mas os Saturnia, no universo de Luís Simões, são outra coisa. São a "entidade" - é assim que se lhes refere - em que descobrimos mais dele. São um percurso e uma procura. Com o seu ritmo próprio. "A corrida dos Saturnia é muito diferente da da generalidade das bandas. É mesmo uma corrida de longa distância. Aliás, nem a vejo como corrida, porque se move tão lentamente. Não estão a progredir em termos de sucesso, mas funcionam a outra velocidade, com outra percepção das coisas". São, diz, aquilo que faz todos os dias quando está em casa. São o seu tempo livre tornado tempo útil, a sua expressão última. Uma realidade paralela que não se mostra e não se esconde.

Os Saturnia estão onde sempre estiveram. Disponíveis para serem descobertos. O primeiro passo, contudo, terá de ser nosso. Eles não se desviarão do seu caminho.
Publico,  30/11/2012 MÁRIO LOPES